ABC do Jornalismo
Nos últimos dias 09 e 10 de outubro a EPTV, afiliada da Rede Globo na região de Campinas veiculou reportagens acerca do suposto envolvimento de policiais civis em delitos.
Contrariando tudo o que se aprende (ou pelo menos é repetido à exaustão pelos professores) nos quatro anos da faculdade de Jornalismo, os profissionais da EPTV simplesmente ignoraram a existência de um outro lado para a mesma história e deram voz apenas àqueles que acusam.
As reportagens podem ser assistidas no site da EPTV, no link vídeos.
De acordo com Carl Bernstein, renomado jornalista americano, “Journalism is the search for the best obtainable version of the truth”.
Ou seja, “Jornalismo é a busca pela melhor versão possível da verdade”, algo que os jornalistas da EPTV se negaram a fazer, seja por preguiça ou desprezo pelo bom Jornalismo.
Se fossem alunos do imortal Bernstein seriam inexoravelmente reprovados.
Inconformado, enviei o email abaixo para a redação.
Confira:
Senhores,
Assisti na EPTV às reportagens sobre os policiais civis de Campinas que são acusados por promotores de terem cometido crimes.
Entretanto, a reportagem não informa se as vítimas desses supostos crimes foram indiciadas, presas, ou se estão sendo ao menos investigadas, já que o repórter se refere aos policiais como “suspeitos” e a tais vítimas como “traficantes”.
Fiquei na dúvida se os promotores indiciaram as supostas vítimas por terem confessado a prática do crime de tráfico ilícito de entorpecentes ou se estas apenas denunciaram os policiais, tomaram um café na promotoria e foram embora para casa.
Os casos citados nas reportagens dos dias 9 e 10 deste mês já aconteceram há algum tempo, ou seja, são notícia fria.
Neste caso, ou os jornalistas da EPTV são absurdamente desinformados, ou por algum motivo, esperaram para veicular tais notícias visando a agradar sabe-se lá a quem (algo que, de tão estarrecedor, prefiro não acreditar).
E uma vez que os casos já são antigos (especialmente para os padrões do Jornalismo diário), é óbvio que faltou vontade para ouvir a outra parte, ou seja, advogados de defesa, os próprios acusados, outras autoridades policiais e juristas, uma vez que há sérias dúvidas quanto à tipificação dos crimes supostamente cometidos pelos policiais.
Com especial atenção à reportagem de Luis Crescenzo sobre os policiais da DISE, faltou explicar por que o crime supostamente praticado foi o de Extorsão Mediante Sequestro e não o de Prevaricação.
Seria importante que a produção se esforçasse um pouco mais para ouvir a outra parte e sanar esta dúvida, ao invés de se decidir pelo caminho mais curto e simplesmente comprar o peixe pelo preço oferecido pela promotoria.
A impressão que se tem é que um foca recebeu um press release e fez a matéria sem ouvir mais ninguém (apesar de a apresentadora tecer rápidos comentários sobre as tentativas de ouvir a outra parte ao final da reportagem)
No início da matéria do dia 10/10, duas mulheres foram ouvidas pela reportagem e disseram não confiar na polícia.
Acredito que seria mais digno e honesto para com o telespectador citar uma pesquisa publicada por alguma universidade ou instituto de renome ou invés de dar voz a duas mulheres não identificadas.
Ou se não há pesquisas disponíveis com esses dados, a reportagem poderia ao menos ouvir pessoas que tivessem opiniões antagônicas. Daria mais credibilidade à matéria.
Será que realmente ninguém confia na polícia, como dão a entender as reportagens?
Nem os parentes de vítimas de homicídios elucidados? Nem as vítimas de automóveis roubados e posteriormente localizados? Nem as vítimas de sequestro que foram resgatadas sãs e salvas?
E a tão propagada superlotação das cadeias do Estado de São Paulo? Seriam obra do acaso? Será que todos aqueles presos se apresentaram espontaneamente ou foram capturados por policiais que arriscam a vida dia a dia a troco dos mais baixos salários dentre as polícias estaduais do Brasil?
O índice de furto e roubo de veículos em Campinas tem caído sistematicamente nos últimos anos em Campinas, bem como o índice de homicídios. Esses fatos poderiam ter sido citados para criar um contraponto à situação apresentada.
Enfim, na minha opinião as reportagens foram tendenciosas, incompletas e possivelmente serão alvo de críticas até mesmo de primeiranistas nas aulas de Introdução ao Jornalismo Audiovisual.
Abs,
Helio Pavan Filho
Jornalista

