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Resposta à EPTV

Não satisfeito com os esclarecimentos de Crescenzo, enviei as seguintes considerações à redação da EPTV: 

Olá Luciane! Olá Crescenzo!Em primeiro lugar, obrigado pela resposta, que, sinceramente, não esperava receber, apesar de entender que foi uma resposta-padrão, temperada com alguma ironia desnecessária e redigida por nítida força de obrigação.

Ainda sobre o mesmo assunto, tenho algumas observações a fazer:

Não existe matéria fria, existe investigação de qualidade.
Na minha humilde opinião a matéria peca exatamente pela falta de qualidade jornalística ao não dar voz à outra parte.Não se trata de crítica amarga e gratuita. Exponho os porquês do meu ponto-de-vista:

Desde o primeiro dia de aula na faculdade de Jornalismo o professor ensina que devem ser ouvidas todas as partes envolvidas no assunto a ser tratado em matéria jornalística. Não é o que tem acontecido no caso ora discutido.

Tenho dúvidas se houve “investigação de qualidade”, mas certeza de que houve assessoria de imprensa de qualidade (ainda que esta não fosse a intenção do autor).

Como não se pode atribuir tal resultado à inexperiência do jornalista, pode-se deduzir que este ou se prestou a esse papel (de assessor de imprensa), ou foi envolvido de tal forma pelas fontes de modo a desprezar qualquer outra linha de raciocínio (o que não se espera de jornalista experiente).

A terceira hipótese (e mais provável) é a de que, com juízo formado, o autor deliberadamente deixou de lado quaisquer outras possibilidades acerca dos casos descritos nas reportagens.

É óbvio que o jornalista jamais vai aceitar tal crítica, ipsis litteris, mas seria interessante e proveitoso que ao menos ponderasse a hipótese de não ter sido perfeito na condução da matéria, que é, sim, fria.

Meu grande “ídolo” no Jornalismo é Carl Bernstein. Segundo ele, “Journalism is the search for the best obtainable version of the truth” (TV Cultura, Roda Viva, 16/12/1996).

Entretanto, isso pouco importa, pois o que se discute aqui é uma matéria dita jornalística na qual não se observa a tal “busca pela melhor versão possível da verdade”, explicada por Bernstein. 

Para chegar a uma quadrilha especializada de policiais não bastam dois minutos de interceptações telefônicas.
A reportagem não fala sobre o indiciamento dos policiais pelo crime de formação de quadrilha. Ou fala? Os policiais são acusados do crime de formação de quadrilha?Salvo melhor juízo, ou o repórter se confundiu ao redigir esta resposta ou ocultou a informação quando da elaboração das matérias. Ou Crescenzo não conhece Direito ou eu não entendi direito.

São horas e horas de gravação, transcrição e envio desse material para peritos, retorno desse matrial, cópias para os juízes e assim – o que alguns podem entender como fria – é investigação de qualidade para não deixar espaços.
Como não entender como fria uma matéria veiculada esta semana acerca de policiais que estão presos há meses. Outros há mais de ano?Paira ainda uma dúvida quanto a este parágrafo: o jornalista utiliza a expressão “investigação de qualidade” pela segunda vez em sua resposta para se referir ao próprio trabalho ou ao trabalho dos promotores e/ou da Corregedoria da Polícia Civil?

Parece óbvio a qualquer pessoa com mínima capacidade de discernimento que “não bastam dois minutos de interceptação telefônica” para realizar uma boa investigação.

Entretanto, gostaria de saber se o jornalista se certificou que foram necessárias “horas e horas de gravação, transcrição”, etc para que os acusadores formassem uma opinião? Ou esta teria sido resultado de denúncias e célere investigação?

Não sou um especialista em leis, ou funções, ou crimes cometidos por funcionários públicos.
Crescenzo, não é necessário que você seja “especialista em leis, ou funções, ou crimes cometidos por funcionários públicos”.Nós jornalistas somos obrigados em determinados momentos a fazer matérias sobre assuntos que pouco dominamos (ou que desconhecemos por completo).

E justamente por isso é necessário um trabalho mínimo de estudo e pesquisa antes de se aventurar a falar sobre crimes com autoridades policiais e judiciárias e depois “traduzir” isso para o “Homer Simpson” (vide os casos de acidentes aéreos quando jornalistas se travestiram de especialistas em aviação civil e desinformaram a população. Ou o caso da morte do jogador Serginho, ao vivo, no Morumbi, que transformou jornalistas em cardiologistas do dia para a noite).

É importante ressaltar que não advogo em nome dos policiais. Não sei e não me atrevo a afirmar se são culpados ou inocentes, pois não sou juiz de direito. Tampouco advogo aqui em nome da instituição a que pertencem.

O que está em pauta nestes meus e-mails refere-se única e exclusivamente ao Jornalismo.

A responsabilidade do jornalista aumenta quando reputações estão em jogo (de pessoas e da instituição), afinal de contas ainda vigora a Constituição Cidadã, que é claríssima ao estabelecer que todos são inocentes até prova em contrário.

Saiba, Crescenzo, que há casos de policiais civis de Campinas, que em passado recente amargaram mais de dez meses de prisão preventiva, acusados de envolvimento em roubos de cargas para depois serem absolvidos por inexistência de crime!

Ou simplesmente não havia interesse, pois um juízo já havia sido formado por parte do autor da matéria, possivelmente com o respaldo de seus superiores?
Nesse sentido, faço minhas as palavras do antropólogo Cristiano Celestino Dourado Borges, da Universidade Federal da Bahia, que escreveu o seguinte no Observatório da Imprensa:

“…o princípio, já fora de moda, in dubio pro reo, é ignorado na maioria das redações grandes.

Significa que a imprensa pode destruir reputações e falar o que bem entender sobre qualquer coisa sem qualquer compromisso com os fatos”.Ora, eu também não sou doutor em Direito Penal e, justamente por isso, gostaria de perguntar a peritos no assunto: como é possível seqüestrar e manter em cárcere privado alguém que tem mandado de prisão expedido em seu desfavor?

 

Se houve crime de extorsão mediante seqüestro, quem foi o extorquido já que o “seqüestrado” encontrava-se preso por força de mandado judicial?

O “extorquido” se apresentou e/ou foi ouvido pelas autoridades? Não sei. A reportagem não me informou.

Nas matérias aqui discutidas, Crescenzo teve que lidar diretamente com os princípios da presunção de inocência, da publicidade dos atos processuais e da liberdade de expressão e de informação e a meu ver falhou ao não equilibrar esses princípios, tanto no texto quanto na edição.

Mas sei que sequestrar, exigir dinheiro, manter em cárcere, não é prevaricação….. bom, de fato pode ser, pois se um funcionário público não faz direito o serviço dele pode ser acusado de prevaricação… é, pensando por esse lado, acho que também cabe!!
Prevaricação é uma coisa. Concussão é outra. Furto não é roubo. E Extorsão Mediante Sequestro é ainda outra coisa, diferente do Sequestro e assim por diante.São condutas distintas e conceitos que o jornalista deve dominar minimamente se quiser discorrer sobre o assunto com alguma credibilidade.

Se o jornalista vai fazer uma série de reportagens sobre saúde, ele tem que se informar para saber, por exemplo, a diferença entre radiografia, ressonância magnética e tomografia.

Caso contrário corre o seriíssimo risco de meter os pés pelas mãos ou – no caso em tela – de ser parcial.

Enfim, percebo nas matérias – e mesmo na resposta de Crescenzo – compromisso apenas superficial com os ditames do bom Jornalismo e é nítido um idealismo pessoal que o impulsiona, levando-o a crer que está “fazendo o bem”.

Mas é claro que esse tipo de afirmação acerca da pessoa (e não do jornalista) Luiz Crescenzo é fruto de subjetividade e posso muito bem estar errado.

Ainda em resposta; tão atento às reportagerns deveria não se esquecer que no final de todas elas o apresentador informou aos telespectadores que advogados foram procurados, deram as opiniões ou simplesmente nada falaram.
Claro que notei tal informação dada pela apresentadora.Também sei que isso é praxe, mas entendo que a “procura” por outras fontes não foi feita com o devido afinco.

Uma coisa é ligar para o advogado horas antes da matéria ir ao ar, obter a informação de que ele não está e dizer ao telespectador que ele não foi localizado. Como a matéria é fria, sobra tempo para fazer isso.

Outra coisa é procurar fontes que possam dar versões diferentes para as mesmas histórias, de modo a permitir que o telespectador forme uma opinião e não a receba mastigada do jornalista.

Será que não havia entre os pares dos policiais, alguém que se dispusesse a falar, ainda que mantendo sua identidade em sigilo? Não havia um representante de entidade de classe que pudesse dar uma opinião ponderada ou diferente daquela apresentada pelos entrevistados?

Ou familiares ou testemunhas de defesa arroladas nos processos ou ainda autoridades policiais que tenham opiniões positivas acerca dos acusados?

Parece-me mais provável que o autor julgou desnecessário tal trabalho, pois os policiais são culpados até que provem sua inocência.

Procedimento (todo mundo sabe) quase padrão na grande imprensa.

Nós, jornalistas da EPTV, temos sim uma preocupação.Preocupação de agradar ao telespectador. As pessoas citadas na matéria , que estão relacionadas a algum tipo de crime ou acusação, estão sendo investigadas pela Justiça, Polícia e Ministério Público de acordo com o teor e a gravidade dos fatos. A questão é que não são elas o foco da reportagem. A matéria não trata de traficantes e suas biqueiras, os contrabandistas e suas mochilas. A matéria é sobre polciais que apoiados em distintivos mudam de lado.

Entende-se que os traficantes não eram o foco da reportagem, entretanto, seria importante saber o paradeiro e a situação de tais criminosos perante a Justiça Pública, uma vez que – repito – as reportagens se referem a eles como “traficantes” e “chefe do tráfico” e aos policiais como “suspeitos”.
É evidente que as matérias eram sobre policiais, mas bastava uma frase: “o traficante também está sendo investigado”. Ou “o chefe do tráfico foi preso”. Ou ainda, “o traficante continua traficando”, ou algo que o valha, sem prejuízo daquilo que se pretendia noticiar.

Ou então também informar ao telespectador o nome e os sobrenomes desses traficantes, tal como foi feito com os policiais.

E por falar em “pessoas citadas na matéria”, no início da reportagem do dia 10/10, duas mulheres foram ouvidas e disseram não confiar na polícia, dando a impressão de que tal opinião é unanimidade.Acredito que seria mais digno – e honesto para com o telespectador – citar uma pesquisa publicada por alguma universidade ou instituto de renome ao invés de dar voz a duas mulheres não identificadas.

Ou, se não há pesquisas disponíveis com esses dados, a reportagem poderia ao menos ouvir pessoas que tivessem opiniões antagônicas. Daria mais credibilidade à matéria.

Será que realmente ninguém confia na polícia, como dão a entender as reportagens?

Nem os parentes de vítimas de homicídios elucidados? Nem as vítimas de automóveis roubados e posteriormente localizados? Nem as vítimas de Extorsão Mediante Sequestro que foram resgatadas sãs e salvas?

E a tão propagada superlotação das cadeias do Estado de São Paulo? Seriam obra do acaso? Será que todos aqueles presos se apresentaram espontaneamente ou foram capturados por policiais que arriscam a vida dia a dia a troco dos mais baixos salários dentre as polícias estaduais do Brasil?

O índice de furto e roubo de veículos em Campinas tem caído sistematicamente nos últimos anos em Campinas, bem como o índice de homicídios. Esses fatos poderiam ter sido citados para criar um contraponto à situação apresentada.

Não se discute que o fato de policiais serem presos e/ou acusados de cometer crimes é fato de interesse público e deve ser noticiado pela imprensa.O problema é o enfoque da reportagem, que dá ao telespectador a certeza de que todos os citados são ladrões, dignos de desprezo e repulsa. Isso não é certo!

Sei que a diferença entre médicos e jornalistas é que os primeiros acham que são Deus e nós temos certeza.

É por isso que não nutro tolas esperanças de um mea culpa por parte da EPTV ou de Crescenzo.

Tampouco quero mudar o mundo, apenas expor minha opinião. Nada mais.

De qualquer forma, novamente obrigado pela atenção em me responder.

Abs,
Helio Pavan Filho
Jornalista

 

 

 

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