Uma boa da Soninha
Não é segredo pra ninguém que eu não vou com a cara da Soninha, vereadora em SP, ex-PT.
Talvez seja mais que isso. Não seria exagero afirmar que eu amo odiá-la. Toda aquela correção política me cheira a hipocrisia e eu me recuso a acreditar que alguém possa ser tão bobinho e bonzinho e inho como a Soninha. Tão bonitinha!
Mas vez por outra ela fala coisas que fazem bastante sentido. Como o comentário que fez acerca dos absurdos ocorridos no estádio do Náutico no último final de semana.
Por isso reproduzo aqui o texto dela a respeito. Como não estava disposto a escrever e a opinião dela é praticamente a mesma, resolvi publicar. O original, publicado em 04/06/08 na folhaonline, pode ser lido aqui.
“Os erros vistos no campo do Náutico no fim-de-semana foram apenas o começo de uma série de barbaridades. De lá para cá, as coisas ficariam cada vez piores.
Quanto ao jogo em si: o lance que rendeu o segundo amarelo ao André Luiz podia perfeitamente ser entendido daquela maneira. O Rui exagerou na queda? Talvez. Mas ele partia a toda velocidade em contra-ataque e o zagueiro do Botafogo se atirou que nem uma vaca brava para impedi-lo. Foi imprudente e, tendo ou não atingido a bola, podia ser punido com o cartão. Se não tivesse resultado em expulsão (e não tivesse havido todo o tumulto que veio depois), o lance não causaria tanta controvérsia, seria apenas mais uma entre muitas decisões em campo. E eu não a chamaria de erro do juiz – podemos dizer “concordo” ou “não concordo” com a sua interpretação.
Aí o André Luiz, que já estava naqueles dias (se fosse mulher, diriam “de TPM”), saiu tão transtornado que foi para o banco em vez de ir para o vestiário. Um erro menor – muito pior foi ter chutado uma garrafa na direção da arquibancada e feito os gestos obscenos para a torcida (depois de fazer o sinal-da-cruz!).
Mas a autoridade em campo é a arbitragem. Quem tinha de dizer “sai daí” era o juiz, não a polícia. Se ele resistisse, aí sim a polícia poderia intervir para preservar a ordem pública e evitar um conflito. Mas — como volta e meia acontece — os policiais entraram em cena para piorar as coisas, não melhorar. Para criar mais tensão e tumulto, e não apaziguar!
Quando a aspirante tentou pegar o jogador pelo braço, não havia a menor necessidade disso. Ele já estava saindo. Ele não devia ter agido daquela maneira, mas não cometeu nenhuma grande violência, nenhuma atitude que justificasse ser cercado e rendido por meia dúzia de policiais armados. Ele não machucou, não atacou, não ameaçou a sub-oficial nem a ordem pública. Só foi ríspido e mal-educado. Ah, cometeu um “desacato”? Ok, dessem voz de prisão depois (o que já seria um exagero). Agarrá-lo à unha porque foi mal-educado é um baita de um exagero.
Policiais do Choque têm de estar preparados para lidar com situações complexas, arriscadas, muito tensas. Precisam saber conter tumulto, rebeliões, com frieza e inteligência. Têm de ser homens e mulheres de gelo, super-qualificados e capacitados, para não sucumbir à impaciência, raiva, nervosismo. Qualquer gesto errado pode resultar em desastre. Mas aqui no Brasil – e não apenas em Pernambuco – é normal o contrário. Quanto mais sangue-no-zóio, melhor.
Enfim, não pode estar certo precisar de vários policiais armados para tirar um jogador expulso de campo. Mesmo sabendo que ele chutou uma garrafa na direção da arquibancada. E se os policiais foram ofendidos (e foram), ofenderam também, como não é raro acontecer.
Para concluir, a porta trancada no vestiário foi uma aberração. A direção do Náutico diz que: 1) quem fica com a chave do vestiário é um funcionário da Federação (não sei por que). 2) quem mandou trancar foi a própria polícia, porque teria gente do Botafogo furiosa lá dentro querendo invadir o campo. É possível que estivessem querendo ir “resgatar” o jogador – mas se o André Luiz pudesse entrar no vestiário, estava resolvido, não teria mais ninguém para ser resgatado. A polícia que contivesse os possíveis invasores e botasse o jogador para dentro do vestiário e pronto. Como ele não entrou, a confusão se estendeu e piorou – sair pelo meio da torcida adversária foi totalmente inadequado.
Para piorar tudo de vez, os comentários sobre o ocorrido viraram troca de ofensas de natureza discriminatória. Tem gente acusando “o nordeste”, Pernambuco, Recife. Absurdo. Mas também tem gente dizendo que “só estão criticando porque é no nordeste”. Outro absurdo.
Reclamar do estádio, do Náutico, da polícia e da Federação Pernambucana não tem nada de bairrismo e preconceito. Foi lá que aconteceu e pronto. Queriam o quê, que a gente não criticasse por ser no nordeste, para não parecer preconceito???? Então o Náutico é café-com-leite? A PM de Pernambuco não pode ser criticada? Ou só pode se o crítico for do nordeste também?
As insanidades continuaram. Um dirigente do Botafogo diz que o André Luiz foi um “herói” por não ter dado umas porradas na policial (!). E enumerou os estados e estádios que não têm problema nenhum – no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio… Bebeu, só pode. E a Assembléia Legislativa de Pernambuco resolveu, por unanimidade, homenagear os policiais que comandaram a operação.
A gente pode até tentar entender o André Luiz e seu destempero, entender os policiais e sua falta de preparo. Mas não condecorá-los!
Tem polícia ruim em todo lugar. Despreparada, truculenta. Não são todos os policiais, mas a instituição é complicada. E há estádios com problemas em tudo quanto é lugar. E até parece que “a imprensa do sul” não explora esses problemas quando são no seu terreiro, não mostra os fatos, não critica…
Pode até ser que alguns estádios recebam menos atenção do que deveriam. São Januário, por exemplo, virou folclore — sabe-se que lá tem problemas e tudo bem, já nem se noticia mais. Mas a recepção ao Sport na Copa do Brasil foi absurda!
Mano Menezes deu uma declaração importante: se os clubes ficarem abandonados à própria sorte, o máximo que conseguiremos é uma escalada da violência. “Nos trataram mal lá? Vão ver como vai ser quando vierem aqui”. As autoridades do futebol (federações, confederação) têm de se ocupar mais disso – ou será que o único temor deixar uma imagem ruim para os investidores estrangeiros interessados na Copa do Mundo?
(Se pelo menos esse temor servir para tomar providências, melhor…)”
![]()
