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Violência/Organizadas

Íntegra do e-mail que enviei a VEJA SP, após a publicação de uma matéria sobre a violência de torcidas organizadas. Confira a reportagem aqui.

Por ser muito complexo, o assunto da reportagem Marginais da Arquibancada, não pode ser explorado a contento e a matéria acabou superficial e, em alguns pontos, confusa.

Sou autor do livro-reportagem Torcidas Organizadas – reflexões sobre a violência no futebol (PUC-Campinas – 2000, prefácio de Juca Kfouri) e me entristece saber que praticamente nada mudou na última década, no que diz respeito às torcidas organizadas, principalmente em São Paulo.

Nos últimos tempos temos acompanhado atos de violência envolvendo torcedores de futebol, mas raramente nas arquibancadas (a que se refere o título da materia).

Esses confrontos ocorrem com frequência em lugares distantes dos estádios e costumam ser imprevisíveis, o que dificulta ações de policiamento preventivo.

O deputado Fernando Capez continua com mesma ladainha de dez anos atrás e quer extinguir as torcidas organizadas, não conseguindo perceber que isso não é possível. É algo surreal, como proibir a prática de crimes, banir o MST, eliminar o PCC por decreto.

Uma das sugestões apresentadas pela revista para “enfrentar a selvageria” diz respeito a jogos com torcida única, mas na página anterior vemos que, das cinco fotos publicadas, apenas uma se refere a confronto entre torcedores adversários.

Portanto, é evidente que tal atitude não eliminará riscos de ocorrências violentas nos estádios.

E agora um promotor, Paulo Castilho, propõe uma nova lei, com o objetivo de “criminalizar atos de violência de torcedores”. Não seria o caso de perguntar se esses atos de violência já não são crimes?

Qual a diferença entre vândalos que frequentam estádios de futebol e vândalos que frequentam calouradas nas universidades brasileiras, onde alunos recém chegados são humilhados, apanham e até morrem?

E os bailes funk? E os rodeios, eventos onde imperam o consumo de álcool, as brigas e, mais recentemente, a violência extrema, com a morte de quatro jovens em Jaguariúna, há um mês? Sem contar a violência contra os animais, embora este seja outro assunto.

Na opinião dos gênios ouvidos por VEJA, se eu brigar num rodeio, numa calourada ou num bailão, eu respondo em liberdade, mas se brigar no estádio, ou em qualquer outro lugar, desde que vestindo uma camiseta de torcida organizada eu vou pra cadeia?

O coronel da reserva, Marcos Marinho, descobriu a América ao afirmar que “o criminoso se sente protegido em meio ao seu bando, pela sensação de anonimato”. Até a mãe do Lula, que nasceu analfabeta, sabe disso.

A reportagem também informa que uma das propostas para enquadrar os fora da lei diz respeito a “prender – e manter presos – os vândalos”.

Mas desde quando vandalismo dá cadeia no Brasil?

Ao discorrer sobre o assunto, o jornalista explica que “a grande maioria dos torcedores envolvidos em brigas […] não fica presa”.

Apesar de serem citadas fontes, acredito que tenha havido um engano, pois seria capaz de apostar grande soma em dinheiro e dizer que ninguém fica preso após se envolver em briga.

Autoridades falam em nova legislação e preveem cadeia para os “criminosos das arquibancadas”.

Mas e o criminoso comum? Teria vantagens legais com relação a seus pares das organizadas? Quer dizer que se o sujeito brigar no campo de futebol, ele vai pra cadeia e o cara que briga no bar é liberado após ser ouvido na delegacia?

Deixe-me ver se entendi: o sujeito participa de uma confusão generalizada do lado de fora do estádio tem que ir para a cadeia. Já o indivíduo que comete um homicídio em um cenário diferente responde ao processo em liberdade. É assim que a coisa vai funcionar?

O promotor Thales Schedl matou um indivíduo a tiros numa madrugada. Foi inocentado por seus pares (se a moda pega, teremos o Metaleiro julgando o Dentinho após um incidente envolvendo torcedores do Timão. Não precisa nem esperar o resultado).

O promotor Marcos Juarez Grossi recentemente atropelou e matou uma família. Continua exercendo em toda plenitude o seu direito de ir e vir.

O promotor Igor Ferreira da Silva matou a mulher grávida de sete meses há anos. Continua por aí. Talvez até frequentando os estádios.

Os pimenta-neves da vida continuam saindo pela porta da frente dos tribunais, mesmo após condenação, pois ainda cabe recurso.

E querem fazer novas leis para mandar brigões e vândalos para a cadeia? Façam-me o favor!

Quer dizer que se no ônibus da organizada a polícia localizar grande quantidade de paus, pedras, barras de ferro, socos ingleses e fogos de artifício, deverão ser abertas mais quarenta e tantas vagas no sistema penitenciário para abrigar esses “bandidos fantasiados de torcedores”?

Quanta ilusão!

Na verdade, as soluções para o problema são tão complexas quanto as causas, demandando inter-disciplinaridade, grande dose de paciência, vontade política e altíssimo custo/investimento.

As chances de algo desse tipo ser colocado em prática são proximas de zero, e isso às vésperas da Copa 2014.

Abraços!

I'm a Hooligan! Won't go to school again, no!

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